sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sobre os domínios (O livro de itens do paciente Estevão)

Por Raimundo Junior

Pelo menos em algum momento tédio é o que comumente se espera de uma peça de 5 horas. Contudo, em O Livro de Itens do Paciente Estevão, em cartaz no SESC Belenzinho, o tédio fica sendo apenas a patologia do personagem Estevão, interpretado de uma forma básica – porém interessante - por Leonardo Medeiros. 
Guilherme Weber, Danilo Grangheia e  Leonardo Medeiros.
Foto: Fernando Donasci
Além do tédio deste personagem principal, o texto aborda diversas patologias sociais ao longo de seus dois atos, como a suscetibilidade à mercantilização de nossa própria imagem, a nossa pré-disposição em colocá-la a disposição de mídias. No segundo ato, denominado “Os Domínios”, isso fica muito claro: o público entende o porquê do recurso audiovisual disposto em telas sobre o cenário e em lugares estratégicos da plateia, mostrando pontos de vista com câmeras fixas em preto e branco, ao vivo, das cenas que estão acontecendo no palco. São ângulos e fotografias que causam estranhamento, aflição; deixam o espectador mais ativo do que se assistisse a uma câmera de segurança, mais passivo do que se assistisse a um Big Brother. São câmeras de um experimento ao qual os seres estão sujeitos diariamente e durante toda a vida. Um experimento que não sabemos ao certo quem é o manipulador, o “deus”, aquele que dá as regras da cena, mas ao qual o sujeito se doa e pelo qual ele não sente medo.
Somos, hoje, facilmente encontrados em “domínios” da internet, que nos levam da vida de um a vida de outro em um clique, que nos permitem opinar sobre qualquer assunto a qualquer hora, de forma contextualizada ou não, em 140 caracteres de um twitter ou em páginas de jornais online e blogs. E, sobretudo, queremos dar esta opinião e, com isto, afirmar a nossa existência e relevância. 
Nestes domínios, Guilherme Weber, Georgette Faddel e Danilo Grangheia desenvolvem uma interpretação segura, com personagens que praticamente têm linhas delineadoras contornando-os em um cenário inteligente e imutável, com um fiat 147 prateado/reluzente em meio aos figurinos de Cassio Brasil. Servem totalmente ao drama e pipocam referências a cada ato. Nesse ambiente, uma parábola é contada com a clareza de um discurso nazista; um conto sobre acontecimentos determinantes na infância vira mote para toda a peça. Pequenas histórias servem ao texto completo, mas também têm luz sobre si mesmas e assim compõem a leveza do espetáculo. 
Os hiperlinks, com seus assuntos que se encerram em si mesmos (mas que também compõem o enredo) dão a dinamicidade da obra e, por isso, o tempo de espetáculo não pesa. Ele pode ser assistido com a fluidez de quem navega na internet: de uma página se vai a outra por uma nota no rodapé, uma foto leva a outro site, algumas palavras eróticas te colocam em outra e um red line exótico nos fazem chegar em domínios nos quais nunca havíamos pensado em estar quando o computador fora ligado. A pós-modernidade fluida, assim como os jogos exacerbados do capital são, nesta peça, profundamente decupados e bem enquadrados.

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