sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O brasileiro é um feriado (A Falecida)

Por Tiago Afonso

 Maria Luisa Mendonça em A Falecida. Direção de Marco Antonio Braz. Foto: João Caldas
Pombas! Após o terceiro sinal, Ruy Castro, jornalista e grande escritor de biografias, entre elas, “O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues”, nos conta toda a história da peça. Uma coisa é fato: muitos conhecem as obras de Nelson, mas a expectativa antes de começar o espetáculo é diferente, não queremos nos contagiar com os fatos que acontecerão [salvo casos raríssimos de pessoas que gostam de saber o que vão assistir antes]. Não estou descascando a lenha, mas: cortinas abertas, atores em cena se preparando, todo o grandioso cenário a “La” Teatro Popular do Sesi, entre o exuberante e o dispensável... é chato escutar tudo isso antes, não somos cabeças de bagre.
Todos os últimos espetáculos que a instituição produz tem um nome “conhecido” no personagem titulo. Mas, até ai morreu Neves. O mais importante é que de alguma maneira eles conseguem levar milhares de pessoas ao teatro por mês. A questão fica para uma próxima discussão: o que leva tantos apreciadores a ver essas produções? O “conhecido”? A encenação?  
All rigth, vamos dispensar apresentações sobre o autor, afinal um centenário em sua homenagem só revela o quão grande, influentes e irreverentes são suas obras. Diz ele: O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.
No duro, a direção do Braz nesse espetáculo não nos traz o invisível do texto, o que realmente Nelson quer nos mostrar com sua primeira tragédia carioca: o cotidiano vulgar dos brasileiros, a falta de dinheiro, as doenças, o dedo no nariz das crianças, as pernas cabeludas de uma mulher, as cartomantes picaretas e o lado mais grosseiro da vida. É uma encenação simples. De fio a pavio: nada é novo, os atores não se entregam ao jogo, não pintam o sete em cena, não se tornam reais, a fulana que interpreta Zulmira, apesar de ser um biju em cena, se perde em meio a multidão.
Ah, o palco italiano. Cada dia tem sido mais estranho o publico não fazer parte da representação, quando também somos parte dela, carambolas! Termos que ficar ali, como plateia, no escuro, perdidos, não nos torna parte da representação, quando poderíamos estar em um grande jogo de futebol, lutando e gritando por Zulmira, por Tuninho, Pimentel e Timbira. Já dizia Nelson: “Uma torcida não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento”.

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